27 de ago de 2010

Fé, Virtude Teologal


 

Fé, Virtude Teologal

O Catecismo da Igreja Católica define a fé como sendo “a virtude teologal pela qual cremos em Deus e em tudo que Ele nos disse e revelou, porque Ele é a própria verdade, e naquilo que a Santa Igreja nos propõe para crer. Pela fé, ‘o homem livremente se entrega todo a Deus. Por isso, o fiel procura conhecer e fazer a vontade de Deus’. ‘O justo viverá da fé’ (Rm 1,17). A fé viva ‘age pela caridade’ (Gl 5,6). A fé é a resposta do homem a Deus que se revela e a ele se doa, trazendo ao mesmo tempo uma luz superabundante ao homem em busca do sentido último de sua vida.”[1] 
 No Antigo Testamento, crer é a atitude característica do homem perante Deus. Ela implica numa adesão da inteligência em reconhecer a Deus em todas as suas manifestações de amor e suas exigências para com o seu povo. A atitude de Abraão é o modelo da verdadeira fé que salva (Gn 3,6): ele gastou a sua vida, confiando na Palavra de Deus (Gn 12,1-2; 13,14-18; Ez 33,23-24; Sl 44,19-21; Rm 4,1s; Hb 11,8-12).
No Novo Testamento, acreditar é prestar fé à Palavra de Deus em Cristo (At 24,14 Lc 24,25-27); é obedecer a Deus (Hb 11,1s; Rm 1,5; 10,16s; Rm 15,18; 16,19; 16,26; 2Cor 5,5s); é confiar nele (Mc 11,22-24; At 3,16; 1Cor 13,2); é converter-se, aceitando o Evangelho (1Tg 1,8-9; Rm 10,17; 2Cor 5,18s; At 3,12-16). Jesus exige fé em sua pessoa (Jo 6,29-40). O coração da fé é a obra salvífica de Cristo, sobretudo a sua morte e ressurreição (1Cor 15,1-20 Rm 4,24 Rm 10,9). Paulo coloca a fé em Cristo como indispensável para a salvação (Rm 1,16). Mas quando opõe fé a obras, fala das obras da Lei mosaica e não dos frutos da fé cristã (Rm 4,13-25; Ef 2,8-10; Mt 7,16-27; Jo 15,1-3; 15,6-8; Tg 2,16-26). Alguns textos de primitivas profissões de fé: Lc 24,34; 1Cor 15,3-5; 1Tg 4,4; 2Cor 5,15; Rm 4,25; 6,4; 6,9; Fl 2,6-11. A Igreja é a depositária da fé: Mt 16,16-19; 18,17s; Mt 28,20; Mc 16,15; Lc 22,31s; Jo 21,15-17; At 1,24s; At 15,7s; At 20,28; 1Cor 1,10; 1Tm 6,20s; 2Tm 4,2-5; Tt 3,10s; 2Jo 1,10.
A profissão: Eu creio! Esta é a fé da Igreja, professada pessoalmente por todo crente, principalmente pelo batismo. Nós cremos! Esta é a fé da Igreja confessada pelos bispos reunidos em Concílio ou, mais comumente, pela assembleia litúrgica dos crentes. Eu creio! É também a Igreja, nossa Mãe, que responde a Deus com sua fé e que nos ensina a dizer: ‘eu creio’, ‘nós cremos’!
É antes de tudo a Igreja que crê e que desta forma carrega, alimenta e sustenta minha fé. É antes de tudo a Igreja que, em toda parte, confessa o Senhor (“Te per orbem terrarum sancta confitetur Ecclesia: A vós por toda a terra proclama a Santa Igreja”, assim cantamos no Te Deum), e com ela e nela também nós somos impulsionados e levados a confessar: ‘Eu creio’, ‘nos cremos’. É por intermédio da Igreja que recebemos a fé e a vida nova no Cristo pelo batismo. No ‘Ritual Romano’, o ministro do batismo pergunta ao catecúmeno: ‘Que pedes à Igreja de Deus?’ E a resposta: ‘A fé.’ ‘E que te dá a fé?’ ‘A vida eterna.’ A salvação vem exclusivamente de Deus, mas, por recebermos a vida de fé por meio da Igreja, esta última é nossa mãe: ‘Nós cremos na Igreja como a mãe de nosso novo nascimento, e não como se ela fosse a autora de nossa salvação’. Por ser nossa mãe, a Igreja é também a educadora de nossa fé.[2]
“A conexão da fé cristã com a esperança e com o amor pode ser evidenciada partindo de dois pontos de vista. Deus, quando revela o Cristo e se revela nele, une no mesmo ato de amor a promessa e a realização A palavra que manifesta seus desígnios salvíficos une o desejo de que seja aceita, a promessa e o amor. A correspondente resposta de fé deve ser ao mesmo tempo adesão à sua verdade, esperança de tudo o que promete e amor à pessoa que se comunica a nós. Isto, quanto ao primeiro ponto de vista. Segundo: para dar resposta de fé é indispensável adotar atitude de confiança na pessoa que nos dá testemunho da verdade revelada. A confiança implica as disposições da esperança e do amor; portanto, espera-se nesta mesma pessoa e ama-se esta mesma pessoa, Assim, pois, na fé cristã se harmonizam necessariamente estas forças do crente que consistem em esperar e amar. Por meio delas a fé abrange o homem inteiro e o compromete a dar resposta total; elas determinam uma espiritualidade especial, já que entram em jogo também a afetividade, a sensibilidade e o sentimento do crente.” [3]

Etimologia

A palavra fé deriva do grego πίστις, pistis, pisteuein, pistia. “O verbo pisteuein em grego clássico significa confiar, mostrar confiança, aceitar como verdadeiro. O substantivo pistis exprime certeza, confiança e crença, como pistis theon, significa crença nos deuses, isto é, crença de que os deuses existem.”[4] Outra origem desta palavra encontra-se no latim fides, que significa crença, fidelidade. “Os significados comuns aparecem sempre no Novo Testamento; o sentido especificamente cristão do termo é um desenvolvimento do uso clássico e do conceito de fé no Antigo Testamento. O termo hebraico que se acha na base dos termos do Novo Testamento pistis e pisteuein é ‘aman. Em essência essa palavra significa ser firme ou sólido, e daí fiel. O nifal do verbo significa ser digno de fé, donde, em relação a uma pessoa, estar certa ou ser de confiança, e em relação a uma coisa, ser verdadeira ou genuína. O hifil, ou forma causal do verbo, não significa simplesmente tornar firme ou certo, mas aceitar algo como neeman: firme, certo ou verdadeiro, digno de fé ou seguro. Assim, se aceita uma palavra ou informação como verdadeira. Os substantivos derivados desse verbo são emûnah, solidez ou firmeza (Ex 17,12) e ‘emet. O que é firme dá segurança (Is 33,6). “[5] “No décimo primeiro capítulo da Carta aos Hebreus, versículo 1, encontra-se, por assim dizer, certa definição da fé que entrelaça estreitamente esta virtude com a esperança. À volta da palavra central desta frase começou a gerar-se desde a Reforma, uma discussão entre os exegetas, mas que parece hoje encaminhar-se para uma interpretação comum. Por enquanto, deixo o termo em questão sem traduzir. A frase soa, pois, assim: ‘A fé é hypostasis das coisas que se esperam; prova das coisas que não se veem’. Para os Padres e para os teólogos da Idade Média era claro que a palavra grega hypostasis devia ser traduzida em latim pelo termo substantia. De fato, a tradução latina do texto, feita na Igreja antiga, diz: ‘Est autem fides sperandarum substantia rerum, argumentum non apparentium’: ‘a fé é a ‘substância’ das coisas que se esperam; a prova das coisas que não se veem’. Tomás de Aquino, na Summa Theologiae, II-IIae, q. 4, a. 1, servindo-se da terminologia da tradição filosófica em que se encontra, explica: a fé é um ‘habitus’, ou seja, uma predisposição constante do espírito, em virtude do qual a vida eterna tem início em nós e a razão é levada a consentir naquilo que não vê. Deste modo, o conceito de ‘substância’ é modificado para significar que pela fé, de forma incoativa – poderíamos dizer ‘em gérmen’ e portanto, segundo a ‘substância’, já estão presentes em nós as coisas que se esperam: a totalidade, a vida verdadeira.”

Aspecto teológico-ascético

“A fé é um dom gratuito que Deus concede ao homem. Podemos perder este dom inestimável; São Paulo alerta Timóteo sobre isso: “Combate o bom combate, com fé e boa consciência; pois alguns, rejeitando a boa consciência, vieram a naufragar na fé” (1Tm 1,18-19). Para viver, crescer e perseverar até o fim na fé, devemos alimentá-la com a Palavra de Deus; devemos implorar ao Senhor que a aumente; ela deve ‘agir pela caridade’ (Gl 5,6), ser carregada pela esperança e estar enraizada na fé da Igreja.”[6] Jesus Cristo é o testemunho por excelência da ação de Deus na história humana. A fé autêntica é sempre resposta à palavra de Deus, e, por isso, se transmite dentro de contexto social. Jesus Cristo respeita esta lei. Escolherá apóstolos, formará discípulos, estabelecerá sua Igreja, seu rebanho, seu reino, e os encarregará de serem suas testemunhas, pregando em todo o mundo (Mc 16,15), batizando, conquistando todos para a mesma fé (Mt 28,19; Lc 24,48). Cristo estabelece o lugar em que o crente realiza por meio da fé o encontro pessoal com ele: encontro, confiança em sua pessoa, que é adesão e inserção em seu mistério de salvação.
O batismo-fé é um submergir-se, um ‘com-sepultar-se’, um enxertar-se na morte redentora de Cristo, um crucificar o homem velho, um morrer com Cristo para viver com ele e participar de sua ressurreição (Rm 6,3-9). Pela fé-batismo, o crente forma um corpo, o corpo de Cristo (1Cor 12,12.27); por meio do Espírito Santo, nele é infundida a caridade de Deus (Rm 5,5) e os dons que o Espírito Santo distribui como quer (1Cor 12,71 dentro deste corpo que ele forma em Cristo, sendo, uns em relação aos outros, membros do mesmo corpo (Rm 12,51, que é a Igreja (CI 1,24). Em resumo, o crente em Cristo realiza em si o plano salvífico de Deus, que age de modo que tudo redunde em bem para os seus eleitos, para todos os que chamou e predestinou ‘a serem conformes à imagem de seu Filho, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos’ (Rm 8,28-29).
Esta ‘conformação’ abrange tudo o que é e deve ser o crente cristão: sua vocação, sua eleição e sua glorificação (Rm 8,30). E isto já desde agora, se bem que não tenha sido ainda manifestado em sua plenitude, plenitude que será alcançada quando virmos a Deus ‘tal como é’(1Jo 3,2). O crente cristão deve ser consciente de que, por meio de sua fé e de tudo o que com ela Deus lhe concede, se converte em nova criatura, em homem novo (Ef 4,24), pedra viva da casa santa de Deus (1Pd 2,5), sacerdócio real, povo de sua conquista (1Pd 2,9) e, por isso, é parte viva e responsável, cada um em seu grau, pela Igreja de Cristo. Esta Igreja, com sua estrutura e com seus sacramentos, com a diversidade de seus membros e com a unidade de seu corpo constitui o povo de Deus (LG 9ss). Nela se encontra a conexão especial do fator que fundamenta a fé, Cristo Jesus, com sua transmissão (ou querigma) guiada pela intervenção especial do Espírito Santo. É importante, para a espiritualidade crente, observar que o acolhimento do querigma mediante a fé supõe intervenção particular de Deus em sua vida, por meio do Espírito Santo, e que a ação dele tende a configurar com Cristo. Aliás, na Igreja, a história humana se transforma em história da salvação, sem que esta se diferencie empiricamente da primeira ou se subtraia a todos os processos e à complexidade dos fatos históricos. Apesar do aspecto humano da Igreja, o Vaticano II pode afirmar que ela é ‘o, sinal erguido entre as nações’ (cf. Is 11,12), que atesta a seus filhos, que a fé por eles professada é fundamento solidíssimo (DS 3014); o que não dispensa que a Igreja tenha que purificar-se constantemente e prosseguir sem interrupção sua tarefa de conversão e de renovação (LG 8), tarefa que se compendia em crescer em justiça e amor, esforçando-se por ser esposa de Cristo, ‘sem mancha nem ruga, nem algo de parecido, porém santa e imaculada’, como ele a quer e a deseja (Ef 5,27).
Todos e cada um dos crentes têm que realizar este esforço, segundo seus próprios dons, seu grau e sua possibilidade. Quanto mais e melhor desempenhar este dever, tanto mais e melhor: a própria Igreja desempenhará sua missão: ser para todo crente cristão o lugar originário e sustentador de sua fé e convite constante para que o círculo de misericórdia divina, que ela representa no mundo, se amplie cada vez mais até acolher todas as nações da terra. Se a fé transforma o crente cristão na imagem do Filho, com tudo o que isto supõe de mudança na ordem ontológica, inclui também conversão de ordem moral. A conversão do crente, sua metanóia, é exigência inerente à sua própria fé e dela decorrente. A conversão interpela a liberdade humana, supõe mudança, aceita e livre, de estado anterior de desacordo, de desordem ou de pecado em relação a Deus, a si mesmo e ao próximo, para outro estado: o da reconciliação. Mas, para que esta conversão se realize como ação humana, a fé deve incluir: a) conhecimento especial da realidade e b) conexão com a esperança e com o amor que a tornem operante, c) inclusive dentro da diferença e d) na compenetração destas três virtudes.
Podemos dizer, pois, que a fé supõe e representa uma conversão, que consiste em orientar a vida espiritual do crente para o mistério real contido em Cristo e, por meio dele, em Deus, excluindo a ignorância passada (1Pd 1,14). Conversão que requer não viver em pecado (Rm 6,21), libertar-se de sua escravidão e de sua tirania (Rm 6,16) para produzir frutos desta santidade que floresce na vida eterna. Por seu lado, a conversão exige a perseverança. Com razão são Paulo exorta a caminhar no Espírito, se vivemos no Espírito (cf. GI 5,25). Contudo, pode ocorrer autêntica conversão e faltar perseverança no caminho empreendido. A perseverança, com efeito, requer que se superem muitas dificuldades que podem ser obstáculos no caminho do crente. Estes obstáculos podem ser de ordem muito diferente e provir de múltiplas causas, cuja oposição à perseverança pode compendiar-se numa palavra: suscitam a dúvida no crente.
  Apontar o modo prático e concreto de superar a dúvida foi tarefa de diversos tratados de espiritualidade: pedagogia e pastoral da fé, discernimento de espíritos e oração. De qualquer forma, o crente tem de saber que a dúvida contraria sua adesão à pessoa de Cristo sob o aspecto específico da verdade e da realidade, que não é componente da fé e que não lhe confere maior flexibilidade ou compreensão, mas que constitui perigo que lhe poderia arrebatar o tesouro do dom recebido, que é carregado, como diz Paulo a propósito de seu apostolado, num vaso frágil de argila (2Cor 4,7), exposto continuamente a milhares de investidas e ameaças (1Pd 5,8-9). Superar a dúvida é consolidar a própria perseverança, o progresso da própria vida espiritual. O crente cristão que pertence à Igreja católica encontra-se em posição privilegiada; jamais terá causa justificada para abandonar sua fé cristã (DS 3014, 3036). Este privilégio, porém, implica em que o crente adapte sua cultura religiosa aos níveis alcançados em sua maturidade humana, às exigências dos tempos e de sua cultura, e que se sirva dos meios que a Igreja põe à sua disposição. É trabalho árduo, comprometedor e delicado, porém possível, que questiona não só o crente particular, mas a própria Igreja como instituição. A conversão sintetiza tudo o que ocorre no crente, uma vez que, por meio da fé, ele entrou em contato pessoal com Cristo. Por isso, deve manter seu dinamismo ao longo de toda a sua vida. Os termos ‘crescimento’ e ‘progresso espiritual’ expressam melhor do que a palavra conversão a constante transformação que a fé exige de quem já é crente, assim como os termos ‘justificado’ e ‘reconciliado’ indicam melhor do que o vocábulo pecador quem é o crente. A conversão à fé deixa para trás um passado de pecado e abre ao crente um futuro que são Paulo assim descreve: ‘Portanto, não existe mais condenação para aqueles que estão em Cristo Jesus’ (Rm 8,1). A conversão é algo inicial (AG 13) e, por isso, admite graus, como a fé (Lc 17,15). A fé tem medida própria (Rm 12,3; 1Cor 12,11); mas, quaisquer sejam o grau e a medida recebidos, a fé convida constantemente o crente e a Igreja a empenhar suas energias em purificá-la, completá-la e levá-la à sua plena realização. Purificar a fé significa eliminar os elementos que se lhe sobrepuseram, por causa de sua encarnação na história; elementos que, em determinadas circunstâncias pessoais ou coletivas, podem parecer intimamente pertencentes a ela, quando não são mais do que subprodutos humanos de sua expressão externa ou de uma compreensão limitada da mesma. Mas purificação da fé significa também o resultado do esforço para colocar em seu devido lugar os elementos da própria fé que em alguns casos foram descuidados. São Paulo quando de sua pregação, reivindica com suma energia o lugar central de Cristo crucificado (1Cor 2,2), purifica a fé da comunidade de Corinto. Jesus Cristo faz o mesmo quando tenta inculcar no coração dos discípulos que se dirigiam a Emaús no dia da Páscoa que Cristo tinha de morrer para entrar em sua glória (Lc 24,26).
A devida hierarquia das verdades da fé (UR 11) já é purificação que exige crescimento da própria fé, já que é laço recíproco entre tais verdades. Esta conexão convida o crente a adquirir conhecimento mais completo das mesmas. A ‘analogia da fé’ pode guiar o crente tanto para a purificação desta fé, quanto para a ampliação de seus horizontes. Se realmente é importante a purificação no que diz respeito à autenticidade e à profundidade da fé, também o é em relação à aquisição de um conhecimento completo, de forma que o crente possa enriquecer principalmente todos os aspectos de sua vida, dar razões mais convincentes de sua esperança (1Pd 3,15) e compreender a dimensão todo abrangente da caridade de Cristo (Ef 3,18).”[7]

Aspecto Místico

“Por sua Revelação, ‘o Deus invisível, levado por seu grande amor, fala aos homens como a amigos, e com eles se entretém para os convidar à comunhão consigo e nela os receber’. A resposta adequada a este convite é a fé. Pela fé, o homem submete completamente sua inteligência e sua vontade a Deus. Com todo o seu ser, o homem dá seu assentimento a Deus revelador. A Sagrada Escritura denomina ‘obediência da fé’ esta resposta do homem ao Deus que revela. Obedecer (ob-audire) na fé significa submeter-se livremente à palavra ouvida, visto que sua verdade é garantida por Deus, a própria Verdade. Desta obediência, Abraão é o modelo que a Sagrada Escritura nos propõe, e a Virgem Maria, sua mais perfeita realização.
A Epístola aos Hebreus, no grande elogio à fé dos antepassados, insiste particularmente na fé de Abraão: ‘Foi pela fé que Abraão, respondendo ao chamado, obedeceu e partiu para uma terra que devia receber como herança, e partiu sem saber para onde ia’ (Hb 11,8). Pela fé, viveu como estrangeiro e como peregrino na Terra Prometida. Pela fé, Sara recebeu a graça de conceber o filho da promessa. Pela fé, finalmente, Abraão ofereceu seu filho único em sacrifício. Abraão realiza, assim, a definição da fé dada pela Epístola aos Hebreus: ‘A fé é uma posse antecipada do que se espera, um meio de demonstrar as realidades que não se veem’ (Hb 11,1). ‘Abraão creu em Deus, e isto lhe foi levado em conta de justiça’ (Rm 4,3). Graças a esta ‘fé poderosa’ (Rm 4,20), Abraão tornou-se ‘o pai de todos os que haveriam de crer’ (Rm 4,1 1.18). O Antigo Testamento é rico em testemunhos desta fé. A Epístola aos Hebreus proclama o elogio da fé exemplar dos antigos, ‘que deram o seu testemunho’ (Hb 11, 2.39). No entanto, ‘Deus previa para nós algo melhor’: a graça de crer em seu Filho Jesus, ‘o autor e realizador da fé, que a leva à perfeição’(Hb 11,40; 12,2). A Virgem Maria realiza da maneira mais perfeita a obediência da fé. Na fé, Maria acolheu o anúncio e a promessa trazida pelo anjo Gabriel, acreditando que ‘nada é impossível a Deus’(Lc 1,37) e dando seu assentimento: ‘Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra’ (Lc 1,38). Isabel a saudou: ‘Bem-aventurada a que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido’ (Lc 1,45). É em virtude desta fé que todas as gerações a proclamarão bem-aventurada. Durante toda a sua vida e até sua última provação, quando Jesus, seu filho, morreu na cruz, sua fé não vacilou. Maria não deixou de crer ‘no cumprimento’ da Palavra de Deus. Por isso a Igreja venera em Maria a realização mais pura da fé.
A fé é primeiramente uma adesão pessoal do homem a Deus; é, ao mesmo tempo e inseparavelmente, o assentimento livre a toda a verdade que Deus revelou. Como adesão pessoal a Deus e assentimento à verdade que ele revelou, a fé cristã é diferente da fé em uma pessoa humana. E justo e bom entregar-se totalmente a Deus e crer absolutamente no que ele diz. Seria vão e falso pôr tal fé em uma criatura. Para o cristão, crer em Deus é, inseparavelmente, crer naquele que Ele enviou, ‘seu Filho bem-amado’, no qual Ele pôs toda à sua complacência; Deus mandou que O escutássemos. O próprio Senhor disse a seus discípulos: ‘Crede em Deus, crede também em mim’ (Jo 14,1). Podemos crer em Jesus Cristo por que ele mesmo é Deus, o Verbo feito carne: ‘Ninguém jamais viu a Deus: o Filho unigênito, que está voltado para o seio do Pai; este o deu a conhecer’ (Jo 1,18). Por ter ele ‘visto o Pai’ (Jo 6,46), ele é o único que o conhece e pode revelá-lo. Não se pode crer em Jesus Cristo sem participar de seu Espírito. E o Espírito Santo que revela aos homens quem é Jesus. Pois ‘ninguém pode dizer ‘Jesus é Senhor’ a não ser no Espírito Santo’ (1 Co 12,3). ‘O Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundidades de Deus... O que está em Deus, ninguém o conhece a não ser o Espírito de Deus’ (1Cor 2,10-11). Só Deus conhece a Deus por inteiro. Cremos no Espírito Santo porque Ele é Deus. Quando São Pedro confessa que Jesus é o Cristo, Filho do Deus vivo, Jesus lhe declara que esta revelação não lhe veio ‘da carne e do sangue, mas de meu Pai que está nos céus’. A fé é um dom de Deus, uma virtude sobrenatural infundida por Ele. ‘Para que se preste esta fé, exigem-se a graça prévia e adjuvante de Deus e os auxílios internos do Espírito Santo, que move o coração e o converte a Deus, abre os olhos da mente e dá a todos suavidade no consentir e crer na verdade’.”[8]
“A fé nos faz degustar como por antecipação a alegria e a luz da visão beatífica, meta de nossa caminhada na terra. Veremos então a Deus ‘face a face’ (1Cor 13,12), ‘tal como Ele é’ (1Jo 3,2). A fé já é, portanto, o começo da vida eterna: Enquanto desde já contemplamos as bênçãos da fé, como um reflexo no espelho, é como se já possuíssemos as coisas maravilhas que um dia desfrutaremos, conforme nos garante nossa fé. Por ora, todavia, ‘caminhamos pela fé, não pela visão’ (2Cor 5,7), e conhecemos a Deus ‘como que em um espelho, de uma forma confusa..., imperfeita’ (1Cor 13,12). Luminosa em virtude daquele em que ela crê, a fé é muitas vezes vivida na obscuridade. A fé pode ser posta à prova. O mundo em que vivemos muitas vezes parece estar bem longe daquilo que a fé nos assegura; as experiências do mal e do sofrimento, das injustiças e da morte parecem contradizer a Boa Nova; podem abalar a fé e tornar-se para ela uma tentação. É então que devemos nos voltar para as testemunhas da fé: Abraão, que creu, ‘esperando contra toda esperança’ (Rm 4,18); a Virgem Maria, que na ‘peregrinação a fé’ foi até a ‘noite da fé’, comungando com o sofrimento de seu Filho e com a noite de seu túmulo e tantas outras testemunhas da fé: ‘Com tal nuvem de testemunhas ao nosso redor, rejeitando todo fardo e o pecado que nos envolve, corramos com perseverança para o certame que nos é proposto, com os olhos fixos naquele que é autor e realizador da fé, Jesus’ (Hb 12,1-2).”[9]

Aspecto prático

“A fé opera por meio da caridade (Gl 5,6). O crente fiel ao Evangelho deve edificar sobre a rocha (Mt 7,24), isto é, deve agir prendendo-se às exigências de sua fé, que lhe revela que a caridade é o grande carisma e o melhor caminho a seguir (1Cor 12,31; 13, 1ss). Sua fé já é amizade com Deus e o vincula ao próximo; mas, sem a caridade – que é amizade e por si mesma intercâmbio de bens e desejos de comunicar o bem supremo permaneceria inoperante. Em síntese, a espiritualidade do crente faz com que resplandeça seu rosto como o de amigo que dá testemunho diante do mundo de que já começaram os tempos da misericórdia de Deus, e de que seu reino já está presente. O apostolado do crente é a demonstração mais eloquente de que ele age como cristão, pois o apostolado procede de seu próprio Batismo. Em outras palavras o apostolado deve estar presente em todas as suas atividades. Todo cristão, se é verdadeiramente tal, participa da missão de Cristo e tem que dar testemunho de Jesus com espírito de profecia. Jesus manifestou a seus discípulos e, por meio deles, a todos os crentes, este desejo: ‘Brilhe de tal modo vossas luz diante dos homens, que eles vejam vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que estás nos céus’ (Mt 5,16). Este dever de crente consiste em encarnar sua fé na própria história. Semelhante proceder, como ode Jesus, evidencia que somos enviados pelo Pai ( Jo 5,36). São Paulo nos serve de modelo para esta conduta, que tem de constar de palavra e ação, de respeito e decisão, de desinteresse e de zelo, sob o impulso da caridade e da esperança em que o Espírito abra a porta dos corações, com o empenho do bom cultivador do campo e com a consciência de que é Deus quem faz crescer a semente, levando em conta o mistério da liberdade humana e da graça divina, e seguindo os seus planos. A espiritualidade do crente cresce dando e comunicando: ‘Ao que tem ser-lhe-á dado; e de quem não tem, até o que tem lhe será tirado’ (Lc 19,26).” [10]

Pecado contrário à virtude da Fé: Incredulidade

Nossa vida moral encontra sua fonte na fé em Deus, que nos revela seu amor. Paulo fala da ‘obediência da fé’ como da primeira obrigação. Ele vê no ‘desconhecimento de Deus’ o princípio e a explicação de todos os desvios morais. Nosso dever em relação a Deus consiste em crer nele e em dar testemunho dele. O primeiro mandamento manda-nos alimentar e guardar com prudência e vigilância nossa fé e rejeitar tudo o que se lhe opõe. Há diversas maneiras de pecar contra a fé. A dúvida voluntária sobre a fé negligencia ou recusa ter como verdadeiro o que Deus revelou e que a Igreja propõe para crer. A dúvida involuntária designa a hesitação em crer, a dificuldade de superar as objeções ligadas à fé ou, ainda, a ansiedade suscitada pela obscuridade da fé. Se for deliberadamente cultivada, a dúvida pode levar à cegueira do espírito. A incredulidade é a negligência da verdade revelada ou a recusa voluntária de lhe dar o próprio assentimento. Chama-se heresia a negação pertinaz, após a recepção do Batismo, de qualquer verdade que se deve crer com fé divina e católica, ou a dúvida pertinaz a respeito dessa verdade; apostasia, o repúdio total da fé cristã; cisma, a recusa de sujeição ao Sumo Pontífice ou da comunhão com os membros da Igreja a ele sujeitos.”[11] “A tentação impele à incredulidade, à rejeição da visão de Deus no sentido que lhe dá Lonergan, de fé como ‘olho de amor’, sem a qual o mundo é demasiado mau para que Deus seja bom, para que o Deus bom possa existir. A fé é o olho do amor, a convicção de que todas as coisas contribuem para o bem dos que amam a Deus (Rrn 8,28); ela reconhece o significado último da consumação do homem. Esta convicção pode ser minada, entretanto, em suas raízes pela desatenção, pelas distrações que dominam o centro da consciência do homem. ‘... Caminhando sob o peso dos cuidados, da riqueza e dos prazeres da vida, são sufocados e não chegam à maturidade’ (Lc 8,14). Os cuidados, as riquezas e os prazeres encontram o modo de se converterem em fins em si mesmos e podem transformar-se em ocasiões em que os homens só olhem para si próprios, em vez de olharem para Deus, na busca de sua realização pessoal.”

Santa Clara e a virtude da Fé

Santa Clara de Assis viveu autenticamente a fé cristã, e a expressou em suas atitudes e palavras. Na Carta Introdutória de sua Legenda, lemos que ela foi luz que resplandeceu e iluminou a visão obscurecida da fé de seu tempo. Clara manteve-se sempre fiel a á fé católica, e exortou suas Irmãs para que se mantivessem firmes na mesma fé.[12]

“Vejo que são a humildade, a força da fé e os braços da pobreza que a levaram a abraçar o tesouro incomparável escondido no campo do mundo e dos corações humanos, com o qual compra-se (cf. Mt 13,44) aquele por quem tudo foi feito (cf. Jo 1,3) do nada.” [13]

“Suporte por bem as adversidades e não se deixe exaltar pela prosperidade, porque esta pede fé, mas aquelas a exigem”.[14]

Se alguém, por inspiração divina, vier ter conosco querendo abraçar esta vida, a abadessa deverá pedir o consentimento de todas as Irmãs. E se a maioria concordar, poderá recebê-la, tendo obtido a licença do nosso cardeal protetor. Se achar que deve ser recebida, examine-a diligentemente, ou a faça examinar sobre a fé católica e os sacramentos da Igreja. Se crer em tudo isso e quiser confessá-lo fielmente e observá-lo firmemente até o fim, não tiver marido ou, tendo-o, já houver entrado na vida religiosa com autorização do bispo diocesano, e feito o voto de continência, e se não for impedida de observar esta vida pela idade avançada ou alguma enfermidade ou deficiência mental, que lhe seja exposto diligentemente o teor de nossa vida.”[15]

(...) a fim de que, sempre submissas e subordinadas aos pés da mesma santa Igreja, firmes na fé católica, observemos para sempre a santa pobreza e humildade de Nosso Senhor Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe e o Santo Evangelho, que prometemos firmemente. Amém.” [16]

“Apenas dada à luz, a pequena Clara começou a brilhar com luminosidade muito precoce nas sombras do século e a resplandecer na tenra infância pelos bons costumes. De coração dócil, recebeu primeiro dos lábios da mãe os rudimentos da fé e, inspirando-a e formando-a interiormente o espírito, esse vaso, em verdade puríssimo, revelou-se vaso de graças.” [17]

“A filha habitualmente segue os vestígios da mãe. De mente atenta, dócil de ânimo, com sentido muito lúcido, o que recebeu da boca da mãe em seus verdes anos, guardando no coração sincero as primícias da fé, já tratava de fazer de si mesma um templo para o Senhor, de modo que o culto a Deus e a prática da vida célibe passasse o tempo primevo dos anos mais tenros, buscava, na concepção pura da mente, que pudesse dar-se como primícias para Cristo, interior e exteriormente.”[18]

“A virgem colocou para si mesma o resumo de toda fé e esperança só na virtude da cruz, cujos méritos estão anotados na Sagrada Página e são figurados pelos perfumes fechados.” [19]

“E a senhora foi virgem desde o seu nascimento. Era a mais humilde entre todas as Irmãs e tinha tanto fervor de espírito que, por amor de Deus, teria suportado de boa vontade o martírio pela defesa da e de sua Ordem. Interrogada sobre como sabia dessas coisas, respondeu que esteve com ela durante todo esse tempo, vendo e ouvindo o amor que a senhora tinha pela fé e pela Ordem.”.[20]



[1] Catecismo Da Igreja Católica 1814; 26.
[2] Ibidem, 167-168.
[3] Dicionário de Espiritualidade. São Paulo: Ed. Paulinas, 1989.

[4] McKenzie, John L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Ed. Paulinas, 1983.
[5] Ibidem.
[6] Catecismo Da Igreja Católica, 162.
[7] Dicionário de Espiritualidade. São Paulo: Ed. Paulinas, 1989.

[8] Catecismo da Igreja Católica, 144-153.
[9] Ibidem , 163-165.
[10] Dicionário de Espiritualidade. São Paulo: Ed. Paulinas, 1989.
[11] Catecismo Da Igreja Católica, 2087-2089.
[12]Cf. RSC 12,13.
[13] 3CtIn 7.
[14] CtEr 7.
[15] RSC 1, 1-7.
[16] Idem 12, 13.
[17] LSC 1.
[18] Idem 5.
[19] Ibidem 28.
[20] ProcC 7, 2.

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